Distraído
pelo barulho
DPAC
Desatenção e notas baixas na
escola não são sinônimo de falta de
inteligência. Às vezes o
problema está na incapacidade de lidar com barulho, mas poucos médicos sabem
disso.
Fábio Peixoto/ Revista
Superinteressante
access_time31 out 2016
Por mais que estudasse, a
paulista Glaudys Garcia não tirava notas maiores que 4. A mãe e os professores
se esforçavam para lhe ensinar coisas simples, mas ela não prestava atenção em
nada. Era insegura, distraída, tinha medo de falar ao telefone e não se
concentrava nos livros. Acabou se isolando dos colegas. Depois de passar por
vários médicos e psicólogos, sua mãe tentou um último recurso: levou-a a uma
fonoaudióloga. Em três meses Glaudys estava curada. Hoje ela tem 13 anos e no
seu último boletim não há nenhuma nota menor do que 6.
Pode parecer estranho, mas o
problema era de audição. A menina, assim como outras centenas de milhares de
crianças, sofria de desordem do processamento auditivo central, ou DPAC, um
distúrbio reconhecido há apenas quatro anos que raramente é diagnosticado pelos
médicos, mas pode estar afetando milhões de brasileiros. Em geral, a disfunção
surge da falta de estímulos sonoros durante a infância. As estruturas do
cérebro que interpretam e hierarquizam os sons se desenvolvem nos treze
primeiros anos. Até essa idade, as notas musicais, as palavras e os barulhos
vão lentamente nos ensinando a lidar com a audição. Justamente nessa fase,
Glaudys pode ter tido problemas no ouvido que atrapalharam a entrada de sons.
Acabou formando mal o seu sistema auditivo. Todos os inconvenientes pelos quais
passou eram consequência disso.
Um dos principais sintomas da
DPAC é a dificuldade em manter a concentração num ambiente ruidoso. “Quem sofre
desse mal não consegue prestar atenção em uma coisa só”, diz a neurologista
Denise Menezes, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. “Na sala de
aula, não separa o que a professora diz do latido de um cachorro do lado de fora”,
acrescenta.
A DPAC
é comum nas grandes cidades, onde o barulho excessivo prejudica a percepção de
estímulos sonoros e a poluição provoca alergias que bloqueiam a orelha com
muco. Crianças que têm inflamações frequentes nos ouvidos também podem sofrer
da desordem. O pior é que, por ser pouco conhecida, a DPAC
costuma ser confundida com falta de inteligência ou com alguma deficiência
mental. Mas, como mostra o caso de Glaudys, uma coisa não tem nada a ver com a
outra.
O mundo é barulhento demais
Para uma vítima de DPAC, o mundo se transforma numa interminável confusão
de barulhos desconexos e embaralhados de onde é quase impossível pescar os sons
que realmente interessam (veja infográfico). O ar-condicionado vira um zunido
infernal que se sobrepõe às vozes dos outros. O telefone torna-se uma máquina
indecifrável, porque o cérebro não consegue decodificar a fala do interlocutor
em meio à distorção normal de qualquer ligação. Também não é fácil entender a
entonação das frases. Uma pergunta pode soar como uma afirmação e uma ironia
acaba parecendo a frase mais séria do mundo. Os amigos acabam se afastando, já
que ninguém gosta de conversar com alguém que não entende o que os outros
dizem.
A fala também é prejudicada. “Os
processos de linguagem se desenvolvem ao mesmo tempo que os de audição”,
explica a fonoaudióloga Liliane Desgualdo, da Universidade Federal de São
Paulo, pioneira no diagnóstico da DPAC no Brasil. “Uma criança pode não
aprender a falar bem se não souber lidar com os sons.” A leitura acaba
igualmente afetada. “Mesmo num lugar silencioso, uma pessoa com DPAC encontra problemas em entender um texto porque,
para tanto, é necessário associar as palavras ao som que elas têm”, conta a
psicopedagoga Ana Silvia Figueiral, de São Paulo. Todo esse esforço para
realizar atividades corriqueiras é demais para o cérebro. Chega uma hora que
ele não resiste e “desliga”. Por isso, as vítimas do problema são sempre muito
distraídas.
Enfim, tudo se torna uma tarefa
dura. O ouvido até percebe os sons, mas o cérebro, iludido pela falta de
estímulos na infância, não sabe o que fazer com eles. Os médicos geralmente não
percebem a disfunção porque ninguém desconfia que sintomas tão variados possam
estar todos ligados à audição, menos ainda quando constatam em exames que o
ouvido funciona normalmente. E, se o diagnóstico não é feito, não há como
curar.
Reaprendendo a escutar
A DPAC
só foi reconhecida nos Estados Unidos em 1996, quando a Associação Americana de
Fala, Linguagem e Audição chegou a um consenso sobre seus sintomas e suas
formas de tratamento. Ainda se sabe pouco sobre as causas – a falta de
estímulos sonoros está entre elas, mas suspeita-se também de razões genéticas e
de má alimentação. “Uma coisa é certa: a desordem está relacionada à classe
social”, afirma Liliane. Ela fez uma pesquisa em colégios de São Paulo e
constatou que, nas escolas particulares, entre 15% e 20% das crianças têm DPAC em algum grau. Nas escolas públicas, onde há uma
proporção bem maior de alunos pobres, o índice chega a alarmantes 70%. A razão
disso é que crianças mais pobres geralmente ouvem menos música, têm mais
inflamações no ouvido, menos acompanhamento de pediatras e psicólogos e se
alimentam pior, o que também pode prejudicar a formação do sistema auditivo.
Infelizmente, a imensa maioria delas carrega esse estorvo para a idade adulta
sem ao menos desconfiar que a cura pode estar ao alcance da mão.
Para Saber Mais
Processamento Auditivo Central
– Manual de Avaliação, Liliane Desgualdo Pereira e Eliane Schochat,
Editora Lovise, São Paulo, 1997.
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